21 junho, 2011

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"E eu quero mais, quero me surpreender, surpreender você. Quero voltar pra casa e plantar algum jasmim com seu cheiro. Só existe amor onde tem perfume e movimento - e seus pirulitos de framboesa distribuídos em pequenas bombonieres pela casa, e a cama que não tem tempo de se recompor, e os milkshakes de morango com cobertura de gelinhos, e os recados curtos em papel amarelo e autoadesivo. Assalto, só do sentimento residente, me mandando calar a boca e levantar as mãos para o céu. Loucuras, nunca mais. Eu voltei.

De todas as coisas que você me deu, a melhor delas certamente foi a chance de escolher, escolher você, escolher ficar contigo e atravessar com algum alívio os dias que eu quero simplesmente morrer pra não ser intimado a depor sobre o meu sumiço. Você me ensinou muitas coisas, a melhor delas, me ensinou que o amor verdadeiro sempre espera um pouco mais pelos abraços atrasados.

Foi só um susto. Um choque que você decidiu me dar pra afogar minha letargia. Pra me dar conta que livre de afeto não é viver, apenas matar o tempo. Eu me perguntava por que a gente estava perto demais e depois me questionei onde tudo se perdeu. Eu só queria perder a vontade de ligar todos os pontos de interrogação. Eu só quero você hoje. Não amanhã, não ontem, hoje. Agora. Não pra sempre - pra já."

trecho daqui.

07 abril, 2011

Um lugar de paz

Um lugar distanciado da movimentação natural das 21h, momento onde todos saem para o intervalo; é assim que encontrei esse lugar, atrás do Teatro UNIMEP.

Um lugar que impossibilita uma precisão quanto ao tamanho, pois se estende a outros lugares, como blocos, biblioteca e capela, dependendo da onde você está. Ligado ao estacionamento A da faculdade, há uma imensidão de veículos parados, como se estivéssemos em um show de uma banda extremamente conhecida e o público representasse os carros.

Segundo Gilberto Souza, um homem de meia idade, baixinho com uma barriga avantajada, motorista da van branca, adesivada como escolar, ele não gosta do lugar por ser muito frio e com muito vento, em todas as épocas do ano. Afirmou que só fica ali por ter que cuidar do veículo, por obrigação.

Colorindo o ambiente com um tom de verde, único das plantas, avistei aquele tapete natural que separava o concreto do meio ambiente, que estava sobre um leve declive– como naqueles onde crianças escorregam sentadas em pedaços de papelão – , as palmeiras (ao todo, oito) – ou seriam coqueiros? – que tinham suas folhas balançadas pelo vento, que não cessava seu movimento por nenhum instante e fazia com que elas emitissem um som que só pode ser ouvido no mais gostoso silêncio, como em um fim de semana na fazenda, longe de movimentos, carros e poluições sonoras.

Assim como o som das folhas e árvores, o aroma do lugar também se assemelhava a de um fim de semana no campo, longe da poluição. Pude sentir o cheiro do ar, puro. Aquele que você puxa ele, enche o pulmão e solta com o maior gosto sem ter o nariz irritado ou sentir uma gota de poluição entrando em você. Foi como estar em outro lugar, diferente do de Piracicaba.

Outra comparação que posso dar é em relação com a vista que podemos ter ao olhar para o céu. Sabe quando você está em um passeio noturno pela praia, mas dessas praias mais ecologicamente corretas, sem luzes artificiais ou iluminações intensas, e as estrelas são quem te iluminam? É justamente assim que me sinto lá.

Mesmo com uma iluminação artificial baixa, se você olhar para cima irá se deparar com o céu mais estrelado da cidade – falo isso porque até hoje não encontrei nenhum lugar mais estrelado do que aqui. É uma infinidade de estrelas que te fazem ficar simplesmente maravilhado. Coisa impossível de se ter andando pelo centro da cidade, devido às fumaças e grande quantidade de luzes artificiais.

15 dezembro, 2010

Receita de Ano Novo

"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Carlos Drummond de Andrade

26 novembro, 2010

Totalmente.

“Quando se despediram, Beauvoir disse o quanto achara bom o fato de terem conseguido conservar a amizade. “Não é amizade”, retrucou. “Eu nunca poderia lhe dar menos que amor”. Beauvoir chorou de soluçar durante toda a viagem para Nova York, onde escreveu-lhe do hotel: “Sinto-me totalmente em suas mãos, absolutamente sem defesa, e, por uma vez, implorei: guarde-me no coração ou me expulse, mas não deixe que eu me agarre ao amor e de repente descubra que ele acabou

31 outubro, 2010

"Meu amor, estamos sozinhos, só nos resta o depois.
Meu amor, estamos sozinhos, desperdiçando arrepios.
Ainda não aprendemos a amar.
Ainda não aprendemos nos dar.
Ainda não aprendemos a calejar à dois.

Eu já vou, mas não partirei sozinho.
Eu já vou, mas levo você no caminho.
Eu nunca vou te deixar, eu não vou desperdiçar o que não foi.
O que se faz de nos dois. O que ficou pra você
Pode acontecer do mundo explodir amanha, tanto faz.
No final ainda sou eu e você.
pode acontecer do mundo explodir só nos dois.
no começo, sempre fui eu e você."

08 outubro, 2010

Acerto.

"(...)
Talvez eu te diga algumas vezes sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta muito comum. (...)

Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhando nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. (...) Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. (...)"

03 setembro, 2010

"Quando setembro vier..."

"De tão azul, o céu parecerá pintado. E nós embarcaremos logo rumo à ilhas Cíclades.Houvesse cortinas no quarto, elas tremulariam com a brisa entrando pelas janelas abertas, de manhã bem cedo. Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade lavava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim.Na sala, encontrei a mesa posta para o café — leite e pão frescos, mamão, suco de laranja, o jornal ao lado. Comi bem devagarinho, lendo as notícias do dia. Tudo estava em paz, no Nordeste, no Oriente Médio, nas Américas Central, do Norte e do Sul. Na página policial, um debate sobre a espantosa diminuição da criminalidade. Comi, li, fumei tão devagarinho que mal percebi que estava atrasado para o trabalho. Achei prudente ligar, avisando que iria demorar um pouco.A linha não estava ocupada. Quando o chefe atendeu, comecei a contar uma história meio longa demais, confusa demais. Só quando ele repetiu calma, calma, pela terceira vez, foi que parei de falar. Então ele disse que tinha acabado de sair de uma reunião com os patrões: tinham decidido que meu trabalho era tão bom, mas tão bom que, a partir daquele dia, eu nem precisava mais ir lá. Bastava passar todo fim de mês, para receber o salário que havia sido triplicado.Desliguei um pouco tonto. Então, podia voltar a meu livro? Discreta e silenciosa como sempre, a empregada tinha tirado a mesa. No centro dela, agora, sobre uma toalha de renda branca, havia rosas cor de chá, aquelas que Oxum mais gosta. No escritório, abri as gavetas e apanhei a pilha de originais de três anos, manchados de café, de vinho, de tinta e umas gotas escuras que pareciam sangue. Reli rapidamente. E a chave que faltava, há tanto tempo, finalmente pintou. Coloquei papel na máquina, comecei a escrever iluminado, possuído a um só tempo por Kafka, Fitzgerald, Clarice e Fante. Não, Pedro não tinha ido embora, nem Dulce partido, nem Eliana enlouquecido. As terras de Calmaritá realmente existiam: para chegar lá, bastava tomar a estrada e seguir em frente.Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo, tanto tempo que quase não a reconheci (mas como poderia esquecê-la?), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu, para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora. Os passaportes estavam prontos, nos encontraríamos no aeroporto: São Paulo/Roma/Atenas, depois Poros, Tinos, Delos, Patmos, Cíclades. Leve seu livro, disse. Não esqueça suas partituras, falei. Olhei em volta, a empregada tinha colocado para tocar A sagração da primavera, minha mala estava feita. Peguei os originais, a gabardine, o chapéu e a mala. Então desci para a limusine que me esperava e embarquei rumo a.PS — Andaram falando que minhas crônicas estavam tristes demais. Aí escrevi esta, pra variar um pouco. Pois como já dizia Cecília/Mia Farrow em A cor púrpura do Cairo: “Encontrei o amor. Ele não é real, mas que se há de fazer? Agente não pode ter tudo na vida...” Fred e Ginger dançam vertiginosamente. Começo a sorrir, quase imperceptível. Axé. E The End.

(Caio F. Abreu, nO Estado de S. Paulo, 27/8/1986)